Tristeza de Quinta

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Divulgação Rosildo Barcellos

“O leve e macio
raio de sol
se põe no rio.
Faz arrebol…

Da árvore evola
amarelo, do alto
bem-te-vi-cartola
e, de um salto

pousa envergado
no bebedouro
a banhar seu louro

pelo enramado…
De arrepio, na cerca
já se abriu e seca.”

(Manoel Wenceslau Leite de Barros. Um bem-te-vi.)

 

Hoje imaginei a tristeza das quintas feiras. Foi assim com Gabriel Garcia Marquez e repetiu-se com Manoel de Barros. Ambos alçaram voo em plena quinta feira cinzenta. E como ele dizia “prezo a velocidade das tartarugas mais que as dos mísseis”. Pra quem nasceu na barranca do rio, no beco da Marinha na cidade de Cuiabá, hoje é do universo é do tudo porque a poesia é tudo. Deus já era um poeta quando criou o homem a sua semelhança. E quando fez nascer Manoel de Barros em solo mato-grossense nos fez maiores do que realmente somos. E quando ele falava de sapos, cobras, rãs e rios; nos mostrava o caminho da felicidade. Porque na poesia descobrimos a felicidade na insignificância e das pequenas coisas.

Além de ser o nosso maior poeta, Manoel de Barros divulgou as belezas e potencialidades do Estado, enriquecendo assim, a história da literatura e a cultura do local que ele escolheu para viver ao lado de sua esposa Dona Stella, que se deleitou da presença do  poeta por 64 anos, até os últimos momentos, ali na Rua Piratininga, nesta Urbe. Quero inclusive deixar registrado, o que significa amor de verdade e quando duas almas gêmeas se encontram na flor póetica do bem querer. Ela faleceu na véspera do aniversário do poeta, que completaria naquele ano 103, em 19 de dezembro, foi em 2020. Sua amada então entrou pela ultima vez em seu adorável fusca e deu a partida para a transposição da alma pantaneira até chegar a beira do Rio Paraguai e entre flores de camalote, respirar o ar do amor e encontrá-lo.

 

Traduzindo-o em números, o nosso poeta-mor se tornou referência no gênero poesia e teve 34 obras publicadas sendo a primeira em 1937 e a mais recente no ano passado. No exterior, teve três obras traduzidas em Portugal, França e Espanha. A história do escritor começou com “Poemas Concebidos Sem Pecado”, feito artesanalmente por amigos quando ainda tinha 19 anos numa tiragem de 21 exemplares. Tenho a consciência da dificuldade de escrever sobre quem é e sempre será o ourives da escrita, mas na minha memória ficará a “cadeira número 1” da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e as doces palavras de sua filha Martha, que no último adeus, com os olhos rasos dágua… recitou um dos versos que ele mais gostava “Do lugar onde estou, já fui embora”.

 

 

*Rosildo Barcellos; Membro Efetivo e Imortal da AILAP “Academia Internacional de Literatura e Arte Poetas Além do Tempo”.

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