O que acontece com o jovem que vive em casa de acolhimento institucional após os 18 anos?

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Divulgação Natalie Melaré

Você já se perguntou o que acontece com o adolescente que vive sob serviço de acolhimento após os 18 anos de idade? O serviço de acolhimento institucional é prestado pelo estado para aqueles jovens de zero a 18 anos que tiveram seus convívios familiares biológicos suspensos por abandono ou determinação judicial em razão de maus tratos, abusos ou negligência. Vejo que, de certa maneira, existe uma preocupação com a criança que vive sob acolhimento institucional, mas isso não acontece depois que ela completa a maioridade civil e é obrigada a deixar o serviço e seguir com a própria vida de forma independente. Foi esse questionamento que me fez começar a ouvir esses jovens e tentar entender como eu poderia fazer a diferença.

Não é errado pensar que todo jovem precisa ter acesso à educação, mas a realidade nua e crua é que esses adolescentes estão preocupados com o dia seguinte, literalmente. Eles precisam, antes de qualquer coisa, de um primeiro emprego, já que terão que se sustentar e viver sozinhos – estatisticamente, a minoria desses jovens são adotados por novas famílias ou retomam o convívio com suas famílias biológicas até atingirem a maioridade civil. Sob essa realidade, um curso técnico e/ou superior, geralmente, fica em segundo plano. A situação é complexa, pois sabemos que, mesmo para aquele jovem que vive com a família natural, em condições mais confortáveis, o primeiro emprego pode ser extremamente desafiador. Para o adolescente que acaba de deixar o serviço de acolhimento e, normalmente, sem nenhuma experiência profissional, a situação é muito mais complicada.

De acordo com dados divulgados pelo Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), existem cerca de 34 mil crianças e adolescentes abrigadas em casas de acolhimento e instituições públicas no Brasil. O drama desses jovens que não conseguem ser adotados ou retomar para o convívio de suas famílias biológicas pode se tornar ainda mais triste quando atingem a maioridade, já que eles irão se enxergar totalmente sozinhos e, muitas vezes, sem nenhuma perspectiva.

Quando nos deparamos com uma situação tão difícil e que funciona da mesma forma há tantos anos, é realmente complicado desafiar esse sistema. Por isso é tão importante uma sociedade que esteja unida e preparada para lidar com as adversidades e, para isso, olhar para o próximo com mais empatia e menos preconceito é um ótimo ponto de partida. Esses adolescentes, normalmente, passam por diversas crises emocionais, portanto, é impossível achar normal que eles sejam simplesmente lançados no mundo, sem nenhum tipo de assistência.

Vejo que passou da hora de existir incentivo para que empreendedores e empresários brasileiros recebam esses adolescentes, dando a eles a primeira oportunidade. Além disso, é essencial oferecer apoio psicológico e assistência social, durante e depois da saída do abrigo, para que eles consigam se tornar independentes não apenas economicamente, mas emocionalmente também.

Sei que pode parecer que estou tentando simplificar uma realidade extremamente complicada, mas, ao mesmo tempo, sinto que precisamos começar uma mudança e isso precisa acontecer de alguma forma. Conversando com as pessoas, vejo que a grande maioria nunca nem sequer pensou sobre essa questão – e é necessário começar a trazê-la para o debate, dar luz para o tema.

Por mais que pareça doloroso pensar em questões como essa, tenha certeza que apenas  refletindo sobre essas situações é que nos tornamos mais preparados e capazes de transformá-las. Não existe mais possibilidade de ignorarmos essa realidade, já que ela causa mais desigualdade social, insegurança e dor para todas as pessoas.

 

 

*Natalie Melaré; Fundadora do Instituto Devolver, organização sem fins lucrativos para apoiar crianças e adolescentes carentes no Brasil

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