“Por que a Guerra?”: Algumas Considerações de Einstein e Freud (Parte II)

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Dando continuidade às considerações de Einstein e Freud sobre o tema das guerras, neste artigo veremos a resposta de Freud à carta de Albert Einstein. Veremos o que Freud diz a respeito do que, em sua visão, seriam alguns dos motivos que levam os homens à guerra, e o que poderia ser feito para diminuí-las.

Freud começa sua carta dizendo que, no tema proposto por Einstein, ou seja, as guerras, o físico já tinha dito “quase tudo o que há de dizer sobre o assunto“, e que se contentaria em confirmar tudo o que o físico disse, ampliando-o com o melhor de seu conhecimento – ou de suas conjecturas.

Freud começa seu argumento destacando o que Einstein diz sobre o poder. Freud diz que não se podia duvidar que esse era o ponto de partida correto para a investigação dos dois. Freud diz que: “É, pois, um princípio geral que os conflitos de interesses entre os homens são resolvidos pelo uso da violência“. Segundo Freud, seja pela força física, ou pelo poder das armas, a demonstração de poder do homem provém do uso da violência. Com a introdução das armas, Freud diz que a superioridade intelectual começou a substituir a força muscular bruta, mas, seja pela força bruta, no uso das armas, ou por meio da intelectualidade, o objetivo final das lutas seria o mesmo – a destruição do “inimigo”.

Como vimos no primeiro artigo, para Einstein, um dos caminhos para que se chegue ao fim das guerras, seria que os homens, e as nações, deveriam abrir mão de sua soberania e de sua imposição através da demonstração de seu poder, abrir mão de seus instintos e desejos mais egoístas e destrutivos. Segundo Einstein, isso aconteceria com a criação de um organismo internacional que, através de leis, limitaria a imposição de uma nação sobre a outra através da violência, impedindo assim as guerras.

Freud, concordando com o argumento de Einstein,  acrescenta que “um poderoso governo central torna impossíveis outras guerras“. Freud chega a dizer que “As guerras somente serão evitadas com certeza, se a humanidade se unir para estabelecer uma autoridade central a que será conferido o direito de abortar todos os conflitos de interesses. Nisto estão envolvidos claramente dois requisitos distintos: criar uma instância suprema e dotá-la do necessário poder.

Falando sobre os motivos que levam o homem a se destruir através das guerras, em apoio ao que disse Einstein, sobre parecer existir no homem um instinto de ódio e destruição, Freud diz acreditar na existência de um instinto dessa natureza, e nos fala sobre a teoria dos instintos.

Diz Freud em sua carta, “De acordo com nossa hipótese, os instintos humanos são de apenas dois tipos; aqueles que tendem a preservar e a unir – o que denominamos ‘eróticos’ (…); e aqueles que tendem a destruir e matar, os quais agrupamos como instinto agressivo ou destrutivo“. Sobre o instinto destrutivo, Freud diz que as incontáveis crueldades praticadas em toda a história atestam sua existência e sua força.

Segundo Freud, “não há maneira de eliminar totalmente os impulsos agressivos do homem; pode-se tentar desviá-los num grau tal que não necessitem encontrar expressão na guerra“. Freud continua, dizendo que a teoria dos instintos facilita para que se encontre a fórmula para métodos indiretos de combater a guerra. Ele diz, “Se o desejo de aderir à guerra é um efeito do instinto destrutivo, a recomendação mais evidente será contrapor-lhe o seu antagonista, Eros“, o amor.

Para o fim das guerras, uma das soluções que Freud nos dá é o amor. Contra o instinto de destruição e morte que o homem traz dentro de si, que o torna disposto a praticar atrocidades indescritíveis em nome de sua imposição de poder, Freud diz que a solução é o amor. Abandonar o instinto de destruição, e no lugar dele, dar ouvidos ao instinto de preservação, de união, de vida, dar ouvidos à Eros, o amor. Segundo Freud,”Tudo o que favorece o estreitamento dos vínculos emocionais entre os homens deve atuar contra a guerra“.

Outro ponto que Freud cita como algo que pode ajudar para que as guerras cheguem ao fim consistia na transformação cultural dos membros da comunidade. Freud acrescenta que “Dentre as características psicológicas da civilização, duas aparecem como as mais importantes: o fortalecimento do intelecto, que está começando a governar a vida instintual, e a internalização dos impulsos agressivos com todas as suas consequentes vantagens e perigos“.

Entendemos então, a partir da correspondência entre Einstein e Freud, que o caminho para se chegar ao fim das guerras se dá através da renúncia dos homens à seus instintos mais animalescos, destrutivos e egoístas. Se dá através do respeito ao próximo, dos laços emocionais, na identificação com o outro, através da imposição do Eros, ou seja, do amor, sobre os instintos destrutivos.

Freud termina sua carta dizendo que “pode não ser utópico esperar que esses dois fatores, a atitude cultural e o justificado medo das consequências de uma guerra futura, venham a resultar, dentro de um tempo previsível, em que se ponha um término à ameaça de guerra. (…) Mas uma coisa podemos dizer: Tudo o que estimula o crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra a guerra.”

Mesmo com todo esse otimismo demonstrado por Freud, nosso contexto atual nos mostra que ainda estamos longe de pôr um término à ameaça das guerras.

 

 

*Wanderson Reginaldo Monteiro
(dudu.slimpac2017@hotmail.com)
São Sebastião do Anta – MG

 

 

Nota: As cartas de Einstein e Freud podem ser encontradas no livro Novas Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise e Outros Trabalhos, Sigmund Freud. (Edição Estandard Brasileira das Obras Psicológicas de Sigmund Freud. Vol. XXII)

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