A Diplomacia Científica em favor da superação dos conflitos

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A aproximação entre diplomacia e ciência tem se mostrado cada vez mais importante para a projeção internacional dos países e aproximação entre seus povos. No trágico contexto da pandemia de covid-19 pelo qual passamos nos últimos dois anos, a Diplomacia Científica (DC) tornou-se um instrumento importante de soft power (poder brando) e de consolidação do multilateralismo.

O que temos visto é a crescente importância do papel das organizações internacionais na busca de negociação entre os atores e na implementação de políticas públicas globais. A Diplomacia Científica é agora desafiada pela emergência do conflito entre Rússia e Ucrânia. A expectativa é que a DC seja mobilizada para a mitigação de danos e superação deste conflito que começa a se configurar como uma das maiores crises humanitárias da história.

O que dá embasamento para a relevância da Diplomacia Científica é a identificação de que vários conflitos puderam ser superados e inovações foram propostas a partir da cooperação entre cientistas de diversas nações. A escalada do conflito, a partir da invasão russa na Ucrânia, apresenta também um desafio para os cientistas que vivem em um Estado isolado e que sofrem com a interrupção abrupta de programas e redes de cooperação internacional estabelecidas há longo tempo. Os recursos de Diplomacia Científica devem ser utilizados para o restabelecimento dessas redes.

No dia 28 de fevereiro, o International Science Council, que reúne 40 associações científicas internacionais e mais de 140 organizações científicas regionais, divulgou uma nota sobre o conflito, chamando atenção para suas consequências sobre a pesquisa e a comunidade acadêmica.

É certo que a colaboração científica e as redes internacionais criadas em torno da pesquisa contribuem para superar os problemas globais e para criar inovações em todas as áreas do conhecimento. Essas redes podem ir além, ao contribuir para a superação de conflitos gerados no plano estatal.

A nota também coloca a organização à disposição para ajudar no acolhimento de cientistas que foram colocados em risco, buscando oportunidades para que possam dar continuidade ao seu trabalho em locais seguros. Tais redes têm se mostrado relevantes em todo o mundo.

No Brasil, sabemos que a USP tem contribuição importante no adensamento de redes internacionais de pesquisas científicas. Em 2019, foi criada a Escola Avançada de Diplomacia Científica e da Inovação (InnScid SP, na sua sigla em inglês), com apoio da Fapesp, tendo reunido mais de cem pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, vindos de mais de 20 países. E foi bem-sucedida nas suas versões virtuais nos dois anos seguintes. Em 2021, em parceria com a The World Academy of Sciences for de Advencement of Sciences in Developing Countries, a InnScid SP apresentou um programa voltado para a discussão sobre a produção científica e a contribuição dada pelos países em desenvolvimento.

A InnScid SP marcou importante momento na discussão do papel da Diplomacia Científica no Brasil, como instrumento de cooperação entre os países pela ciência, criando uma rede de pesquisadores que passaram a se conectar à primeira Escola de Diplomacia Científica sediada no Sul global.

Em agosto de 2022, está prevista a realização da quarta edição da Escola Avançada de Diplomacia Científica e da Inovação, a ser sediada no Instituto de Estudos Avançados (IEA), em parceria com o Departamento de Ciência Política da USP, em formato híbrido. Será o momento de discutir como a Diplomacia Científica pode contribuir para intensificar os canais de cooperação internacional, e também como esse instrumento importante de negociação pode atuar na superação das turbulências geopolíticas.

(*) Janina Onuki é professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

(*) Amâncio Jorge de Oliveira é professor do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP.

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