O que o conflito entre Rússia e Ucrânia tem a ver com os brasileiros?

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A Rússia continua movimentando recursos militares que sugerem um ataque “em larga escala” contra a Ucrânia, declaração proferida nesta terça-feira, 22/02, pelo secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o norueguês Jens Stoltenberg. Desde a semana passada, a presença de tropas russas em território Ucraniano vem desestabilizando o leste Europeu e impactando o mundo todo.

Além das oscilações do mercado, o Brasil teve uma participação de destaque. O presidente Jair Bolsonaro esteve na Rússia neste período inicial de tensão. Para além da discussão sobre a necessidade desta agenda diplomática, seus gastos e a possibilidade de cancelamento, tal episódio internacional é uma oportunidade para levantarmos um debate sobre a política externa brasileira. Como especialista da área, reconheço alguma obscuridade no debate. Porém, garanto ao leitor que o cerne do meu argumento será muito fácil de ser entendido. O fato é que as relações internacionais muito têm a ver com nosso dia a dia. Penso que ainda precisamos aprender muito sobre as implicações da política em nossas vidas. Pouco se trata disso. Uso o imbróglio em questão para provocar.

Então, o que temos a ver com o conflito entre Ucrânia e Rússia? Quando o Brasil realiza uma agenda na Rússia durante o conflito, ele indiretamente se posiciona solidário ao país. Contudo, nossa leitura como cidadãos precisa ser mais cuidadosa e menos imediatista. É fundamental que seja claro, para nós, brasileiros, quais são os interesses de se relacionar com um país independentemente de quem o governa. As potencialidades de cada país ultrapassam as limitações dos seus efêmeros estadistas.

Existem complementaridades em diversas agendas muito além da comercial, por isso o Brasil não deve escolher um lado e sim todos os lados. O diálogo globalista é uma característica histórica da nossa diplomacia, que nos credencia como exímios negociadores internacionais. Então, geralmente, conviver bem com o país não se restringe a ter exclusiva afinidade com aquele representante político que temporariamente o governa. Somos uma nação capaz de visitar a Ucrânia e a Rússia em um período de desajuste entre os dois Estados, sobretudo porque possuímos imigrantes das duas regiões vivendo em harmonia em nosso solo. E por que não o fizemos?

Acredito que uma de nossas fragilidades é enxergar os posicionamentos descontinuados, como se o Brasil mudasse de ideia a cada 4 anos. Um país deve portar-se como Estado ao se relacionar com o mundo. É muito simplista e contraproducente utilizar agendas de política externa para fins de reeleição nacional. O impacto no eleitorado brasileiro, historicamente, costuma ser inexpressivo, porém o arranhão nas relações internacionais com outros Estados pode demorar muitas eleições e muitos estadistas para cicatrizar.

É com tristeza que vejo se perder um dos maiores diferenciais do Brasil como sociedade, que é a pluralidade. Neste ano, celebramos o centenário da Semana de Arte Moderna, que mostrou para o mundo a nossa capacidade de conviver com o outro, de reinventar a arte mundial com a nossa ótica. Assim moldou-se também a nossa diplomacia, verdadeiramente global. Em um país onde judeus e árabes ocupam o mesmo complexo comercial, colônias de descendentes europeus estabelecidas no sul do país, viajam de férias dentro do nosso território e se encantam com culinárias e músicas tradicionais africanas. Este país nunca deveria perder a sua credencial de pluralidade e lançar-se sempre ao mundo com o sucesso dessa harmonia cultural em sua bagagem, pois isso é o que de melhor podemos oferecer a um mundo intolerante.

 

 

*Wilson Mendonça  –  Formado em Administração e Relações Internacionais, mestre e doutorando em Relações Internacionais, consultor, pesquisador, palestrante e Professor de Relações Internacionais. Especialista em negociações internacionais com atuações in-loco em mais de 40 países, Professor de Negociações Internacionais da SKEMA Business School.

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