Crise e divisão: a eleição para presidente nos Estados Unidos

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Hoje os Estados Unidos são a sociedade mais dividida entre os países ricos. As midterms de 2018 haviam mostrado quão áspera seria a campanha de 2020. “Cada geração deve lutar pela democracia; nunca acreditei, contudo, que lutaríamos de modo tão duro”, disse Joe Biden na Filadélfia, poucos dias antes da eleição, enquanto os republicanos insinuavam mais uma crise ao solicitar a suspensão de votos por drive-thru no Texas.

A estratégia democrata com Biden apostou na imagem de um homem simples e moderado. Tentando contornar a polarização, ele enfatizou que seria um presidente para todos. Sua personalidade contrasta com Donald Trump, de modo que Biden pôde apelar ao voto por uma solução de compromisso que mitigasse possíveis conflitos sociais. Biden funciona como um receptáculo que inverte as marcas negativas de Trump. Isso o levou longe, como um anti-Trump, mas não o suficiente para angariar pleno apoio da esquerda, como a simpatia dos eleitores desencantados de Bernie Sanders.

No caso de Trump, a construção da política de hegemonia entre os republicanos foi tortuosa. O grupo controlado por ele no Senado conseguiu livrá-lo de um impeachment, mas figuras importantes do partido não apoiam o trumpismo. Como chegamos até aqui?

A crise de 2008 e as pressões socioculturais decorrentes da imigração, da segurança, dos vazamentos políticos e da percepção de elitização do sistema (anatemizado como corrupto e desconectado do povo) indicaram um mal-estar nas democracias liberais. Os protestos de rua de 2010-2013, especialmente os “indignados” espanhóis (atacando a coalização PP-PSOE) e o Occupy (com a crítica contra o 1%), ofereceram respostas difusas que agruparam uma agenda progressista pautada no reconhecimento moral da cidadania e nas desigualdades socioeconômicas.

As multidões renovaram os movimentos sociais e sinalizaram perspectivas para um internacionalismo na esquerda, mas fracassaram ao traduzir as demandas em políticas públicas (exceto o populismo de esquerda do Syriza na Grécia e parte da esquerda espanhola). Alguns processos, aliás, como as ruas brasileiras de 2013, foram a signatura rerum em um caminho delicado: a voga antipolítica e a retórica abstrata antissistema foram revertidas em seus opostos dialéticos, pavimentando o caminho para a desmoralização das instituições e para discursos autocráticos, legitimados pelas urnas, de derrubada do establishment.

A marca do fim dos anos 2010 foi o redesenho no campo da direita e, sobretudo, a elevação de líderes populistas de extrema direita ao mainstream. Mesmo as elites da direita tradicional, como David Cameron, Nicolas Sarkozy e Emmanuel Macron, apesar de dissociadas do substrato ideológico da extrema direita, já consentiam com políticas radicais contra a imigração – até Hillary Clinton, em 2018, assim se posicionou. A dinâmica eleitoral da extrema direita, tangível no populismo reacionário do Fidesz em 2010 (Hungria) e do PiS em 2015 (Polônia), ganhou força a partir de 2016 com o nativismo do Brexit.

A nova morfologia da direita nas eleições europeias de 2019 indicou como a resiliência política dos partidos da direita tradicional assistia à desenvoltura da extrema direita populista (impulsionada, a bem da verdade, desde 2014). No fim da década, líderes como Trump, Jair Bolsonaro e Narendra Modi dirigiam três das maiores democracias do planeta sem qualquer peia em expressar alternativas autoritárias.

Trump desvelou a nova razão da política. O efeito pervasivo e divisivo das mídias sociais, alimentado pela agitação populista e pelos ataques contra a ordem liberal, subsidia uma gramática nacionalista que questiona as abaladas miragens da globalização. Ele utiliza o ressentimento popular e a desconfiança de um sistema elitista, sedimentado durante décadas de domínio das instituições liberais, torcendo a democracia a partir de suas próprias contradições.

Para o estilo de Trump, fundamental é manipular as regras e pressionar os limites institucionais, pois o sistema está sempre corrompido. O defeito de Trump é sua inabilidade: falta-lhe o tato calculista de um político de carreira, pois inspira apenas aqueles que já estão fartos do sistema e acaba alimentando a oposição.

O populismo autoritário encampado por Trump ganhou força a partir da crise de legitimação nos Estados Unidos. O sistema, a rigor, não recuperou a confiança perdida junto à população: a novidade, agora, é que Trump enfrenta seus próprios problemas de legitimação. A divisa Make America Great Again vacila quando confrontada com as promessas desfeitas e com as novas crises. A resposta à covid-19 é desastrosa, com 238 mil mortes e uma disseminação ainda sem controle.

Os protestos antirracistas mostraram a força de pautas ligadas às assimetrias sociais e à discriminação. Por outro lado, as políticas do governo, ecoando a retórica nixoniana de lei e ordem, não contiveram a situação. A sobreposição das dimensões socioeconômica (a crise da pandemia) e sociocultural (a afirmação política da diferença social) pesa contra Trump.

Os democratas, além do colégio eleitoral, contam com o expressivo volume do voto majoritário. Mas o governo Biden lidará com uma Suprema Corte desfavorável, uma discreta maioria na Câmara e provavelmente um Senado republicano (a depender das runoffs). Além da conjuntura econômica frágil, da ascensão chinesa e da necessidade de políticas públicas contra a desigualdade, há um país dividido. A política populista de Trump sobreviveu no cenário árido da polarização, já que produziu e é um produto da mesma. A moderação de Biden precisará de muita habilidade para tanto.

Em 2020 quase um terço da população norte-americana votou em Trump, que normalizou e construiu uma extrema direita populista com força sem precedentes nas democracias liberais. Entre 2016 e 2020, ele ampliou em cerca de quatro pontos percentuais o apoio latino e soube explorar as frustrações econômicas das classes trabalhadoras. Isso implica uma reflexão sobre como criticar o populismo autoritário. Para tanto, convém reconstruir um conceito de crítica capaz de expor as contradições e as alternativas latentes sob o atual estado de crise generalizada.

(*) Felipe Ziotti Narita é pesquisador do Laboratório de Estudos e Pesquisa sobre Infância, Juventude e Educação (Lepinje) da USP e Jeremiah Morelock sociólogo do Boston College.

CREDITO: CAMPO GRANDE NEWS

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